12.12.2016
Nota de Repúdio à Reportagem da Revista Veja
Prezados (as),
segue carta de repúdio à reportagem da Veja "Mentes em Choque", que defende o modelo de hospitais psiquiátricos. A carta foi fruto de uma solicitação do NUSAM para a Comissão de Saúde do CRP 11. Solicitamos que ela seja divulgada no máximo de coletivos possível. Receberemos, no email: saude@crp11.org.br, os nomes dos coletivos que desejam assinar a nota, até a data de 19 de dezembro de 2016, para envio da carta à revista Veja.
Atenciosamente,
Taís Bleicher
Presidenta da comissão de Saúde/CRP-11
Carta em repúdio à matéria “Mentes em Choque”, publicada pela revista Veja
Mesmo em momento político onde variados direitos sociais estão ameaçados, ainda nos indigna a matéria publicada pela revista Veja, intitulada “Mentes em Choque”, com conteúdo retrógrado e preconceituoso.
Os hospitais psiquiátricos se constituíram, ao longo da história, como espaços de segregação e desrespeito a vida de seus internos, algumas vezes, sob o título de tratamento. O fundador da Psiquiatria, Phillippe Pinel, criou o chamado Tratamento Moral. Como o próprio nome demonstra, tal tratamento nada tinha de sanitário, mas, sim, de um julgamento moral do que desprezava os que, há época, eram chamados de alienados. O Tratamento Moral está na origem dos hospitais psiquiátricos/manicômios, pois Pinel acreditava que o isolamento do paciente do lugar que “gerou a alienação” o faria retornar à “sanidade”.
Entretanto, além de o Tratamento Moral não ter qualquer natureza científica e tampouco demonstrasse eficácia para o tratamento da alienação, desde suas origens, os hospitais psiquiátricos se constituíram como espaços de maus-tratos, incluindo-se ações que podem ser classificadas como torturas contra seus internos. Isto aconteceu em todo o mundo, e, de igual maneira, no Brasil, como ilustra a reportagem da própria revista Veja, de 27 de junho de 2013, sobre o Hospital Psiquiátrico de Barbacena.
Em resposta a isto, em muitos lugares do mundo, ocorreram movimentos que, compõem o que hoje se chamam movimentos de Saúde Mental. Estes movimentos questionam a eficácia dos hospitais psiquiátricos como locais de tratamento, bem como a centralidade e exclusividade do direcionamento do tratamento na figura de médicos psiquiatras, como se não existissem outros profissionais de Saúde. Entende-se que o que leva a um sofrimento psíquico tem determinação complexa: psicológica, social, além de biológica. A necessidade de uma “Atenção Psicossocial” parte desta complexidade, já admitida pela Organização Mundial da Saúde, quando definiu o conceito de saúde a partir de múltiplos determinantes, na década de 1940.
A Revista Veja chega, portanto, com 50 anos de atraso à discussão do campo, quando resume Saúde Mental à Psiquiatria. Agrava ainda sua desinformação quando resume o tratamento psiquiátrico à seus formatos biologicistas e farmacológicos, quando, mundialmente, as evidências científicas apontam para o sucesso das intervenções psicossociais. E, ainda, vai na contramão da chamada Reforma Psiquiátrica quando defende a internação em hospitais psiquiátricos para o sucesso do tratamento.
Em nenhum momento, a reforma psiquiátrica nega a necessidade de hospitalização. Por vezes, em uma quantia menor de casos, ela se faz necessária. Entretanto, tecnicamente, a hospitalização pode ser feita em qualquer hospital geral, desde que tenham curto intervalo de tempo, sem a necessidade de segregação e de estigmas advindos da internação em hospitais psiquiátricos.
Não se trata, como a matéria pretende fazer parecer, que a Reforma Psiquiátrica se resuma a uma “ideologia” para fechamento de hospitais psiquiátricos, mas, sim, de um movimento mundial estabelecido em evidências científicas presentes desde a década de 1960, de que hospitais psiquiátricos possuem efeitos que cronificam os problemas apresentados pelos pacientes, ao invés de permitir que possam ter vida digna em meio as comunidades onde residem, tendo efeitos iatrogênicos. Além disso, o fechamento de hospitais psiquiátricos não significa ausência de cuidados para pessoas com sofrimento psíquico, uma vez que nosso sistema de saúde prevê, em seu lugar, leitos psiquiátricos em hospitais gerais e redes substitutivas de cuidados, que, no Brasil, são organizadas pelos Centros de Atenção Psicossocial. Esta configuração permite a atenção não só individual ao paciente, mas à sua família e à sua comunidade.
Por isso, os trabalhadores da Saúde Mental repudiam a matéria veiculada pela revista Veja, que reduz o cuidado de pessoas com sofrimento psíquico a estratégias segregadoras, biologicistas e que nega os avanços científicos do campo. Defendemos o atendimento multiprofissional, do sujeito em seu território de origem, integrado à sua família e à sua comunidade, como qualquer outro cidadão. Acreditamos que técnicas e ética em Saúde devem andar de mãos dadas, no respeito ao sujeito e à sua possibilidade de vida em sociedade.
Assinam
a carta:
Conselho
Regional de Psicologia – CRP/11
Programa
Clínica, Estética e Política do Cuidado/UFC
Coletivo
Fortaleza de Todas as Cores
Asociación
Átopos, Salud Mental y Cultura/Espanha
Centro
Acadêmico Honestino Guimarães/UniCatólica
Núcleo
Cearense de Estudos e Pesquisas sobre a Criança - NUCEPEC/UFC
Grupo Interdisciplinar de Estudos, Pesquisas e Intervenções
em Psicologia Social Crítica - PARALAXE/UFC
Grupo de Estudo, Pesquisa e Extensão em História, Loucura e
Saúde Mental/UFC
CAPS – São Gonçalo do Amarante
Núcleo de Estudos sobre Drogas – NUCED/UFC
Fórum Cearense da Luta Antimanicomial - FCLA
Grupo de Pesquisas e Intervenções sobre
Violência, Exclusão Social e Subjetivação - VIESES/UFC
Cláudia Freitas de Oliveira – professora do departamento de História/UFC
Veriana
de Fátima Rodrigues Colaço - professora do departamento de Psicologia/UFC
Janille
Maria Lima Ribeiro – professora da PUC/Goiás
Wanne de
Oliveira Belmino - psicóloga
Domingos Arthur Feitosa Petrola – professor do departamento
de Psicologia/UECE
Alana de Oliveira – membro do Núcleo de Estudos sobre
Drogas/UFC e Fórum Cearense da Luta Antimanicomial
Ângela de Alencar Araripe Pinheiro – psicóloga, professora do
departamento de Psicologia da UFC.
Taís Bleicher – psicóloga/UFC, professora de
Psicologia/Unicatólica
André Barreto – professor de Psicologia/UniCatólica
Paulo Quinderé – professor de Psicologia/UFC
Martha
Regueira Alves – psicóloga
Patrícia
Lemos – professora de Psicologia/Faculdade Luciano Feijão
Andréa
Frota Sampaio Figueiredo - Assessora Técnica da Coordenadoria de
Políticas sobre Drogas do município de Fortaleza
Jaína
Linhares Alcantara – doutoranda em Ciências Sociais/UFBA
Yasmin
Cupertino Reis – psicóloga
Talita
Lemos – assistente social
Emanuel
Meireles Vieira – professor de Psicologia/UFPA
Jamine
Borges – enfermeira, doutoranda em Saúde Coletiva/UECE
Pedro P.
Câmara – psicólogo/UFC
Eduardo
Mourão Vasconcelos – professor da Escola de Serviço Social/UFRJ
Patrícia Dias Gomes – psicóloga
João Luiz
de Araújo – psicólogo
Fabiana
Miranda Pinheiro – psicóloga e psicanalista/INCERE
Ana Lígia
Assunção Livalter – Tutora – Escola de Formação em Saúde da Família Visconde de
Sabóia
Priscilla
Santos Miguel – médica psiquiatra
Zuleide
Falcão de Aquino - psicóloga
Giomar
Tavares – psicóloga
Aline
Teles de Andrade - psicóloga
Cezar
Augusto Ferreira Silva – médico
Narceli
América de Alencar Azevedo – Psiquiatra
Wellington
Peixoto de Sousa – coordenador do CAPS de Quixadá
Mariana
Tavares Cavalcanti Liberato
Jannayna
Pereira Lima
Jossane
Linhares
Ana
Fernandes